
........Não é pretensão minha tentar, sequer, reviver meus tempos de actividade profissional para dar lições a quem quer seja. Quero até considerar o respeito que devo aos meus pacientes leitores que, para minha maior satisfação, têm levado a sua bondade a ponto de me incentivarem a este salutar exercício de manutenção mental com os seus sábios comentários a alguns de meus posts. Bem hajam !
........No entanto é esta sensibilidade de professor de Português, que me desperta do sossego reformador para uma intervenção, motivada pelo que considero o desajuste duma expressão, absolutamente inadequada à finalidade da sua aplicação:
........Certa entidade, com responsabilidades públicas de âmbito local, durante uma sessão de homenagem ao autor de uma obra que era então apresentada à assistência, no meio do discurso, que pretendia ser de reconhecimento do mérito e louvor do seu trabalho, proferiu a expressão : “… e saiu esta enxurrada de versos”
Imagine-se, uma “enxurrada” de versos !...
........Consulte-se o dicionário: enxurrada s.f. 1. torrente de água da chuva; 2. corrente de águas sujas ou de esgotos, enxurro; 3. jorro de imundices; chorrilho.
........Pessoalmente não creio, mas, o termo dá azo a um maldoso segundo sentido. Considerando-se a sua carga conotativa de sentido negativo, poderia querer significar que a grande quantidade de versos a que se referia o orador, não seria mais que um enxurro .
........É caso para dizer, cuidado com a língua !
........Ora, se algum apreço merecesse a grande quantidade de “versos”, se fosse de considerar tal como poesia, e o discurso para a louvar tivesse de meter água, então por que não dizer catadupa ou, melhor ainda, cascata. Cascata é uma queda de água límpida, portanto termo que melhor se coaduna com poesia.
........Uma cascata de versos !